segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Digerir (mal, muito mal)


Não me lembro quando foi, sei que foi há pelo menos dez anos, na praceta em frente ao Mosteiro de S. Dinis (transformado em colégio interno de onde vem a famosa expressão d' "As meninas de Odivelas"), tinham montado uma Feira do Livro em tendas improvisadas, e nós andávamos por ali a vaguear. Parei numa banca de livros esotéricos, e o vendedor perguntou de imediato qual o meu signo. "Peixes" respondi sem grande interesse.
"Ah, a menina é caprichosa, gosta que saibam o que está a pensar sem ter de o dizer". E desde esse dia tento controlar o meu espírito caprichoso, convencendo-me que as pessoas não são videntes e não podem (nem têm de) saber o que estou a pensar para agir em conformidade (se bem que já me podiam conhecer um pouco). Por isso fui treinando e aperfeiçoando a técnica de dizer o que penso e o que quero sem ficar à espera que descubram o que me vai na alma. Isto serve também para os amuos, que fui abandonando aos poucos porque não resolvem nada.
Agora, se eu digo o que quero e o que sinto sem ceder a amuos e sem fazer a vida negra a ninguém, e tudo continua na mesma, vou fazer o quê? Como é que combato esta apatia paralisante, esta falta de qualquer incentivo que me faça desabrochar, ter vontade de ser generosa de novo (dar, improvisar e surpreender, como sempre fiz, pequenos gestos com grande significado - mas até isso perde a piada quando não surte o efeito desejado, quando nem sequer é notado), dar mais de mim, sentir alguma coisa para além do muro de silêncio em que embato todos os dias e todas as noites? Como é que eu deixo de me sentir invisível?

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